terça-feira, 5 de maio de 2015

O QUE SE TEM VISTO, OUVIDO E LIDO POR AQUI


Havia muito tempo que eu não encontrava dois livros tão excepcionais numa mesma semana, mas em abril li o 'All the light we cannot see', do Anthony Doerr, e o 'The missing shade of blue', da Jenny Erdal. Partindo de uma idéia exposta no 'Investigação acerca do entendimento humano', do David Hume, a Jenny Erdal teceu uma história densa, profunda, mas ao mesmo tempo viciante. Desde a composição das personagens até o enredo, tudo funciona perfeitamente. aqui está o trecho do Hume que forneceu à autora o ponto de partida para sua história:
'Há, no entanto, um fenômeno contraditório que pode provar que não é absolutamente impossível que as idéias nasçam indepen­dentes de suas impressões correspondentes. Acredito que se concor­daria facilmente que as várias idéias de cores diferentes que penetram pelos olhos, ou aquelas de sons conduzidas pelo ouvido, são realmente diferentes umas das outras, embora, ao mesmo tempo, parecidas. Ora, se isto é verdadeiro a respeito das diferentes cores, deve sê-lo igual­mente para os diversos matizes da mesma cor; e cada matiz produz uma idéia diversa, independente das outras. Pois, se se negasse isto, seria possível, por contínua gradação dos matizes, passar insensivel­mente de uma cor a outra completamente distante de série; se vós não admitis a distinção entre os intermediários, não podeis, sem ab­surdo, negar a identidade dos extremos. Suponde, então, uma pessoa que gozou do uso de sua visão durante trinta anos e se tornou per­feitamente familiarizada com cores de todos os gêneros, exceto com um matiz particular do azul, por exemplo, que nunca teve a sorte de ver. Colocai todos os diferentes matizes daquela cor, exceto aquele único, defronte daquela pessoa, decrescendo gradualmente do mais escuro ao mais claro. Certamente, ela perceberá um vazio onde falta este matiz, terá o sentimento de que há uma grande distância naquele lugar, entre as cores contíguas, mais do que em qualquer outro. Ora, pergunto se lhe seria possível, através de sua imaginação, preencher este vazio e dar nascimento à idéia deste matiz particular que, todavia, seus sentidos nunca lhe forneceram? Poucos leitores, creio eu, serão de opinião que ela não pode; e isto pode servir de prova que as idéias simples nem sempre derivam das impressões correspondentes, mas esse caso tão singular é apenas digno de observação e não merece que, unicamente por ele, modifiquemos nossa máxima geral'.
O que tem tocado mais frequentemente nos ipods, ipads e iphones aqui de casa são dois álbuns: o novo da Diana Krall, 'Wallflower', e o 'Collected', do Hooverphonic. 




Diana Krall sempre entrega sofisticação e excelentes interpretações, tanto cantando quanto ao piano. Ainda que as músicas escolhidas para esse álbum sejam o mais puro clichê, ela as revestiu de uma roupagem nova e interessante. A coletânea do Hooverphonic não é nova, mas é essencial para quem, como nós, gosta de 'fuck music' (trip-hop). São horas de excelente música eletrônica.


Assisti, no domingo a um filme que escolhi no Netflix, chamado 'Sedução' ('Cracks') (http://www.imdb.com/title/tt1183665/). Eva Green, lindíssima, é a protagonista. A história, ambientada na Inglaterra da década de 30, mostra um internato para meninas consideradas 'indesejáveis' por suas famílias. Eva interpreta (canastronicamente, diga-se) uma professora de Educação Física, que treina o grupo de saltos ornamentais da escola. As meninas a idolatram, e adoram as histórias que ela conta sobre sua vida antes de chegar ao colégio, cheias de aventuras e de viagens fascinantes. O que se descobre, depois, é que são histórias inventadas, baseadas em livros, e que ela nunca saiu do colégio, desde que era aluna ali. A desintegração mental da professora vai se aprofundando, acelerada pela chegada de uma aluna nova, espanhola, que, ela sim, viveu aventuras reais (uma delas, que envolveu a fuga com um marxista, foi responsável pelo envio da garota ao internato). A garota despreza a professora, que fica obcecada por ela, e o filme vai mostrando as tentativas de manipulação de ambas, assim como angústia que, por um ou outro motivo, perpassa as vidas de todas aquelas mulheres que devem viver ali, juntas, sem contato com suas famílias e amigos. Excetuando-se a canastrice da Eva, o filme é bom

. Vale ser assistido :)

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